- Trégua decorosa no bate-boca presidencialVillas-Bôas Corrêa, repórter político do JB
Agora que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o seu sucessor, presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já se arranharam o suficiente no bate-boca que vem azedando a cada novo round, é mais do conveniente que os contendores aproveitem a trégua para uma reflexão e que cada qual vá cuidar da sua vida, pois ambos têm, ou devem ter, muito que fazer.
Creio que nem mesmo interessa a esta altura apurar quem começou o chinfrim. Repórteres de boa memória relembraram a cordialidade emocionada nos salamaleques da troca de faixas, com o casal FH recebendo os futuros hóspedes no Palácio do Alvorada para o jantar íntimo, a visita aos salões, salas, quartos, além dos jardins e as áreas de lazer e de exercícios.
E que Lula e dona Marisa retribuíram com esmerada fidalguia e, na despedida generosa de Lula, a promessa da amizade sem mácula.
Nada a estranhar. As relações na fase da aliança do líder sindical e fundador do Partido dos Trabalhadores e o sociólogo de esquerda que se elegeria senador por São Paulo se enquadravam na rotina política.
A dupla derrota de Lula na eleição de FH para presidente em 1994 e na reeleição em 1998 deixou os lanhos do vale-tudo para embutir na Constituição a praga amaldiçoada da reeleição.
Mas são águas passadas que não impediram a transição no modelo de gentis-homens das cortes monárquicas. O sociólogo, com as malas prontas para correr o mundo, recebeu com naturalidade a vitória do petista com maciça votação popular.
Abriu as contas dos gastos oficiais à curiosidade de comissões dos sábios petistas, com a desdenhosa indiferença de que “não há nada a esconder”. E se havia, os açodados especialistas do PT, com os olhos nas vagas para diretorias, cargos em comissão, sinecuras nos conselhos de coisa nenhuma acharam o que queriam e se deram por satisfeitos.
Picuinhas, indiretas, suspeitas lançadas ao vento sequer esperaram que assentasse a poeira na Praça dos Três Poderes. E nem o ex-presidente fingiu que não sentia as fisgadas e muito menos o presidente saiu da reta, transferindo a resposta às críticas aos ministros que sobram na Esplanada dos Ministérios.
Chegamos ao ponto de saturação. Presidente e ex-presidente que prezam a dignidade do mandato conferido pelo povo não podem baixar ao bate-boca de feira-livre como os que FH e Lula se engalfinharam numa semana de desatino.
A imprensa, os cronistas, os humoristas da mídia têm a licença da atividade profissional para criticar os tropeços de Lula na maratona de dois, três improvisos diários. Nenhum esforço para corrigir as deficiências do nordestino de Caetés que, aos cinco anos, emigrou para São Paulo com a mãe e brava lutadora, dona Lindu, e os irmãos menores, só completou o terceiro ano primário em três escolas e nunca mais estudou, apesar de anos de escassa atividade como dirigente do PT, abriu a guarda para o despique dos adversários. Mas o sociólogo de renome internacional, poliglota, milionário com o cachê das conferências não tem nada a ganhar e tudo a perder quando, na Convenção Nacional do PSDB, escarnece da escolaridade do seu sucessor na Presidência da República.
E Lula tropeça na imprudência quando dá o troco miúdo nos conselhos ao seu antecessor para “fechar a boca” quando ele fala como um papagaio e ainda esbarra na arrogância na lapidar sentença da presunção: “Se comparar a educação, a formação intelectual do Fernando Henrique Cardoso ele é muito mais estudado que eu”. E o fecho de ouro: “É verdade que ele teve mais anos de escolaridade, mas eu sei governar melhor do que ele”.
Francamente, respeitem-se e ao povo.